1 de maio de 2005

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uma música como essa agora, como essa que eu você mas não nós ouvimos entende-se só como sempre se está só nos sentidos mais importantes é impossível o a dois ou mais ideal ainda que alguém pense que é a mais triste música que já conheceu. a uma música assim lenta, a uma música assim só resta mesmo é ser acompanhada por ouvidos mais que humanos mas apenas aqueles dos seres da espera que esperam a nota que vem depois e mesmo os sons arranhados que passam por notas mas que chocar não chocam simplesmente porque somos humanos da espera, machucados da espera, motivados pela espera, cansados da espera. (dizia que) esse ou outro sentido são sentidos sempre só e apenas sempre sós uma morte é sentida apenas por uma pessoa a cada modo o gozo do sexo só se sabe o seu próprio quando se sabe as várias possíveis distâncias da consciência só se sentem em relação à sua consciência e medo do escuro ou da solidão que são o mesmo cada um só pode inventar para si mesmo e para seus presentespassadosfuturos. a música muda elementos muito pequenos na maioria das mudanças. aprender a apreender suas fases e encontrar fins de ciclos começa a parecer bonito e privilégio de poucos e quase se pode achar que se é um, uno. um ciclo se fecha e o desenvolvimento de sons em outros que parecem continuá-lo mas em alguma verdade são outros apenas mostram que o tal ciclo estava dentro de outro, mais longo, que se só agora se fecha. são mais de dezoito minutos que repetidos viram ainda muitos e que na minha versão não dos fatos, dos tatos dos meus ouvidos são interropidos pela voz que não posso comunicar e que me fala de um tema que não conheço nem gostaria mas que me mata a cada palavra estranha chorada. os ciclos, de tão ciclos que são, retomam-se e misturam-se noutros para esquecermos que são ciclos e poderia começar a crer que se fazem só e de propósito e que me diminuem o ser por serem demais. melhor assim, melhor que uma música, a cada vez só poder ser uma e só pode ser música – se eu fingir que não é poema se eu fingir que não é imagem ao mesmo tempo estacionada e em movimento na tela da minha cabeça. 18’10”.
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4 comentários:

mayná quintana disse...

quase sem pontos, como num fluxo de pensamento. gosto muito das escritas assim.

F. A. Barros disse...

Tendo a concordar com o comentário que antecede este. Apenas quanto ao fluxo de pensamento. Tive dificuldades nesses dois fragmentos (este e o que lhe sucede). Este mais longo me deixou em dificuldades exatamente por nunca ter te visto falar nesses termos a respeito de música.

Tive dificuldade por conta do aspecto de "fluxo de pensamento", o que tornou a leitura especialmente truncada.

Na Montanha Mágica, Hans Castorp divaga muito sobre a música, e tendo a concordar com ele (visto a duradoura influência que esses romances de formação têm sobre mim) na medida que em um dos momentos ele fala da música como se fosse algo que visasse a preencher um espaço de tempo que não necessariamente está vazio, mas que, mesmo que esteja num momento inicial tomado por outra coisa, ganha significação e sentidos completamente novos por conta da música que o preenche.

Me lembrei disso, suponho, talvez acertadamente, que não tenha relação com o que você pretende nesse texto, mas assim o procedi visto minha dificuldade.

v. disse...

me passe quando eu f0or na tua case, querido, isso do Mann.

e, para ti, parece um fluxo de pensamento mas você não gosta?
falar "nesses termos a respeito de música" é ruim?

F. A. Barros disse...

Não julgo ruim, não me pronunciei nesse sentido. Enfim, acho que por cacoete tendo a evitar o uso do "fluxo de pensamento".

Você sabe, a figura do autor intelectual (e pastiche) que coloca os termos de forma mais ou menos clara me atrai mais, ainda que possa ser empobrecedora.

De qualquer forma, aqui há também algo que me incomoda e que esta no Joyce: o esforço intelectual para a fruição do texto é muito grande, de modo que tendo a me afastar de construções desse tipo.

Espero ter sido mais claro. Quanto ao Mann, você terá que ler a obra, pois é um motivo recorrente - Leitmotiv.

No Dr. Fausto ele fala o tempo todo de música. O Caio gosta muito.