6 de dezembro de 2006

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A poesia contemporânea que me interessa é aquela que representa uma aventura intelectual, termo que prefiro a invenção ou experimental, muito desgastados e redutores. Há quem, por outro lado, se importe mais com a qualidade. Bom proveito, eu digo, bom proveito. Mas quanto a mim, para quê vou querer um sub-Yeats se já tenho o próprio Yeats? De poetas como ele só se imita o que é imitável, e isso é sabido desde a Aurora, mas o que importa é justamente o inimitável que há neles, ou seja, sua aventura intelectual. Quantos poetas contemporâneos no mundo produzem tal substância? Poucos, como em todas as épocas, mas existem, e são tremendos, Adília Lopes, Nicanor Parra, Tamara Kamenszain, Leopoldo María Panero, Nathalie Quintane, Michael Palmer, Dominique Fourcade e mais alguns. E no Brasil, quantos livros de poesia representam uma aventura intelectual? Pouquíssimos, mas existem, e são os que fazem diferença. Não publico um livro inédito de poemas há mais de dez anos porque não sinto no que faço essa força de que falo. E é claro que prefiro ficar mais dez,vinte, trinta anos sem publicar nada a seguir o modelo tradicional de publicar, a cada três anos, a cada quatro anos, aproximadamente, um volume que iluda seu autor com a sensação de existir e fazer parte disso que convencionamos chamar poesia contemporânea e cuja existência, pelo menos nestes termos, ainda está por ser provada.
Mas veja, veja aquela orquídea de fogo rasgada no breu desse quarto de hotel, no lençol desse quarto de hotel, em cuja janela me debruço ouvindo o ruído do aparelho de ar condicionado e o silêncio, volta e meia cortado pelo motor de uma motocicleta, ou vozes e passos dentro da madrugada. Você anotou todas essas coisas para que nãonos percamos? Onde está o seu bloco agora? E você agora? Por que espero tão impacientemente que aquele casal conversando e rindo três quadras mais abaixo desapareça imediatamentede meu campo de visão, suma de meu campo de visão, desapareça de meu campo de visão, continuity girl?
PS: É proposital que me desocupe inteiramente do "complexo de dna" de certas análises que se desviam do que é mesmo difícil de se abordar na poesia contemporânea, preferindo a facilidade tal-pai-tal-filho das afirmações do tipo: "filhos dos "concretos", "filhos de drummond", "filhos da marginália", "filhos da p.", "filhos de santo". (Em São Paulo anda na moda esse facilitarismo analítico em sua versão química (e não alquímica): "diluidor de concretos", "diluidor de drummond", "diluidor da marginália" etc). Não à toa meu brother Siscar já afirmou que o grande problema da maior parte da crítica de poesia contemporânea é, pura e simplesmente, seu gosto irreprimível por generalizações.

Carlito Azevedo, em discussao sobre poesia contemporânea no blog As Escolhas Afectivas (asescolhasafectivas.blogspot.com) como diria whitman, and you may contribute a verse.

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3 comentários:

Pablo disse...

E eu aqui também. =)
Beijo

a. disse...

não deve ser coisa fácil mesmo ser artista e crítico-de-arte ao mesmo tempo. ter duas línguas, e não poder morder nenhuma.

(não pode?)

F, A, Barros disse...

Li o texto esperando que fosse seu. Decepcionado por não ser. E o trecho "Não à toa meu brother Siscar...", por usar um termo em inglês me Dispensável. E esse sujeito ainda quer versar sobre literatura brasileira.