25 de abril de 2010

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e pareceu que para ser borboleta mesmo
não se podia ser borboleta o tempo todo

mudou pra flor
florinha amarela
caída do jardim de adélia

apenas por algumas estações

não parecia possível para estar viva
estar enganchada em terra
e tomar chuvas e maus tratos de passantes

mas se é a terra quem alimenta
a fase amarela da vida
é aceitar nela
o colchão, cobertor e céu

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29 de julho de 2009



em dias tão meses

de olhos e ouvidos tampados

simplesmente pelos dias

tão meses


a memória do efeito

basta para continuar movendo

e a novidade de hoje será talvez

um dia

a descoberta de algo velho




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10 de junho de 2009

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no caminho reto e a passo frouxo
apesar de cobras e motores
não se volta em olhar, ouvidos
e esforços de compreensão
enquanto no mundo de figurantes
o vento não sopra o ponto

da próxima fala ao improviso
a querência é muita
mas a convicção é fraca

cozinha ruminado com a notícia
e põe na bacia pra dormir
pra ver se nasce pureza

mas para além das buzinas
há o grito, o roer de madeiras
e todas as noites
a prece baixa de hoje
pergunta pelos chiados
tantas escuridões à espreita:
os ratos estão por dentro.


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29 de abril de 2009

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desafoga a cabeça, menina

pra dar tempo de sonhar nessa noite


chora no ombro

da arara e mancha

o vestido azul de verão


porque essa tua água

traz um tanto de letras e palavras

- sempre tão estrangeiras

por mais que você as estude -

porque elas se tornam sempre

mais estrangeiras depois de

passar por dentro de você


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21 de março de 2009

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medo é a impotência


de transformar

o furta cor do sabão em bolha

circunferência

na linha transparente do vidro

plano


recusa de escolher forma

a preferência pela textura

pele ou cabelo


desespero do silêncio

mudado

em silêncio


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26 de fevereiro de 2009

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o tom do arrepio muda

conforme a direção do toque


mas se essa água se confunde

com a de banho a de língua a de

exercício das temperaturas

é só treinar, é só treinar

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4 de fevereiro de 2009

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essa mansidão calculada

não vai funcionar por muito mais tempo

se eu fosse você
abria logo a janela de emergência desse ônibus

pra gritar mais alto
quando tudo começar

então poderemos até dividir
a trilha sonora que escolhi pro meu dia:
quer um lado do fone?

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28 de dezembro de 2008

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vamos,

botar todos os pés e corpos

em todas as estradas

até longe e até perto

olhar e dormir e acordar olhando

conversar em todos os sotaques

– como se fossem outras línguas: todas nossas -

vejamos por baixo de nossas peles inquietas

confirmando que somos como sempre nos vimos

- e sempre diferentes disso -

através dos olhos e cheiros de nós

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23 de dezembro de 2008

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não bastaria dar uma sugestão arrogante para encerrar a conversa

na mesa, todos tão latentes esperando sua vez de falar


- essas intensidades não convencem.

- não, melhor fazer doer. os enfeites são para os estranhamente tristes, os que sentem sem descanso, os que não querem fechar os olhos antes de dormir, racionalmente intuitivos

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10 de dezembro de 2008

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por onde começamos a começar
tudo

sempre silêncios e depois
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19 de novembro de 2008

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não.

esperar sentado que minha não doação se transforme
pare, volte
mas o mundo tem muitas horas
(a palavra criava o fato
e não é de hoje)
o mundo reage
enquanto olho, espero
e decido agir impulsivamente

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25 de julho de 2008

1 de julho de 2008

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intoxicante olhar ao lado
no alto
e na calçada

nas lentes escolhidas
apenas parcialmente
tudo continua

tóxico
e já visto

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23 de fevereiro de 2008

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uns quatro anos depois que eu nasci
fomos para a praia

a água parecia muita
saía inclusive da pele
mais do que sempre saía antes

no andar acima
falavam entre si de umidade
se úmido era (ou é) molhado
lá isso era

mas era a areia na pele
que brigava e casava
com a água


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11 de janeiro de 2008

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se assim
você se levanta
para ir à janela

seguro e
antes digo não

me fuma,
então

nos olhos fechados viam

esticada,
queimando minha ponta
com brasa

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20 de novembro de 2007

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tem unhas daquelas de moça
mulher
e mesmo sem elas, encostaria
como uma asa pousada
nas minhas costas

com pontas de unha imaginárias
e pontas mais, reais assim
roça, rela, toca, alcança

faz aquele algo
assim
manipulando com a boca
apenas o ar
ao redor da pele

(fosse possível
a onomatopéia de um suspiro)

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9 de novembro de 2007

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se o critério é expressão, hoje como às vezes, cito outro.
nuno ramos, no cujo.



"Eu quis ver mas não o vi. Eu quis ter mas não o tive. Eu quis. Eu quis o deus mas não o tive. Eu quis o homem, o filho, o primeiro bicho mas não os pude ver. Estava deitado, desperto. Estava desde o início. Quis me mover mas não me movi. Eu quis. Estava debruçado, morto desde o início. A grama alta quase não me deixava ver. Estava morto desde o comecinho. Eu quis o medo mas não o pude ter. Estava deitado, debruçado bem morto. Quis ver o primeiro bicho e a raiz da primeira planta. A grama alta não me deixava ver. Quis ficar acordado mas dormi. Estava deitado e a grama alta não me deixava ver. Os olhos esbugalhados quase morriam pela última vez. Estava ali desde o comecinho. Eu quis o medo mas não o pude ter. Quis o sono, a arca, algum algarismo romano. Quis o homem, mas não este aqui. Quis um deus, mas não este aqui. Ouvi os mil ruídos sem saber do quê. Estava debruçado sobre a grama. Quis virar o corpo e olhar o céu mas não este aqui. Quis olhar a carne desde o comecinho, por trás da pele mas não demasiado profundo. Quis olhar a carne e a raiz da primeira planta (esta só tinha caule). Quis o medo mas não disso aí. Quis dizer: disso aí. Quis virar o corpo mas sem se mexer. Estava morto desde a primeira planta. Estava morto bem morto desde o comecinho da primeira planta. Era um fóssil da primeira planta mas não esta planta aí. Quis dizer: esta planta aí. Quis olhar, olhar, olhar isto aqui. Estava debruçado sobre a grama alta sem me mexer. Quis virar o corpo e ver o céu mas não este aqui. Estava bem morto e quis dizer isto aqui."
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14 de setembro de 2007

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perigoso é ver a pessoa dormindo.

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